Fibromialgia e flores

O poder das flores no tratamento da fibromialgia

Flores e Fibromialgia

Um estudo publicado em 2019 mostrou que participar de um curso de arranjos de flores pode ajudar na dor e nos sintomas psiquiátricos de pacientes com fibromialgia.

Os resultados desse estudo evidenciam os benefícios em potencial da floricultura como terapia ocupacional para melhorar a qualidade de vida dos pacientes com fibromialgia.

O coinvestigator Howard Amital, chefe do Center for Autoimmune Diseases em Tel-HaShomer e professor de medicina na Sackler Faculty of Medicine em Tel-Aviv , Israel, observou que o arranjo de flores é especialmente eficaz porque é um “terapia de multistimulação.”  

Segundo Howard Amital , a realização de arranjo de flores estimula diferentes sentidos, e que esses sentidos ” coincidem e produzem um efeito muito positivo no paciente”. Acrescentou também que é importante que os médicos se interessem sobre as terapias não farmacológicas para a fibromialgia, motivo pelo qual ele resolveu publicar o estudo em uma revista científica médica.

As descobertas foram publicadas online na edição de julho do Israel Medical Association Journal.

Fibromialgia

A fibromialgia é uma doença caracterizada por dor crônica generalizada e fadiga e comumente está acompanhada por síndromes somáticas, como por exemplo a síndrome intestino irritável, enxaquecas e disfunção da ATM (DTM). Além disso, muitas vezes os pacientes também podem apresentar transtornos de humor e ansiedade.

Em todo o mundo, a fibromialgia afeta cerca de 2% a 4% da população, sendo principalmente as mulheres.

Muito pouco se sabe sobre a patogênese da doença, por isso, os tratamentos se concentram principalmente no alívio da dor e na melhoria da qualidade de vida. Os especialistas recomendam uma abordagem multimodal que abrange exercícios aeróbicos, terapia cognitivo-comportamental e medidas farmacológicas.

O Estudo

O estudo foi observacional e incluiu 61 pacientes adultos do sexo feminino (idade média, 51 anos) com diagnóstico de fibromialgia. As participantes do estudo concluíram um curso de design de flores de 12 semanas com sessões semanais sob a supervisão de um florista treinado. Os pacientes do estudo aprenderam a criar buquês de flores para levar para casa.

Dois grupos participaram do estudo consecutivamente. O primeiro grupo participou da semana 1 à semana 12, e o segundo, da semana 12 à semana 24. Os pesquisadores mensuraram uma série de índices de atividade de doença de fibromialgia em três momentos: no início do estudo (semana 0), na semana 12 e na conclusão do estudo (semana 24).

As ferramentas utilizadas para avaliação foram: o Brief Pain Impact Questionnaire (BPI), o Short Form Survey de 36 itens (SF-36), a Escala Visual Analógica (EVA), contagem dos Tender-Points e o Questionário de Impacto da Fibromialgia (FIQ).

O estudo também avaliou a ansiedade, utilizando a Escala de Avaliação de Ansiedade de Hamilton (HAMA) e depressão, utilizando a Escala de Avaliação de Depressão de Hamilton (HDRS).

Os dois grupos eram similares com relação à avaliação da saúde mental e física no início do estudo. No entanto, a pontuação EVA foi significativamente maior no grupo 1, o primeiro grupo a concluir o curso, quando comparado ao grupo 2 (média de 8 vs 7, respectivamente; P = 01).

O uso de inibidores da recaptação da serotonina-norepinefrina, inibidores seletivos da recaptação da serotonina ou pregabalina foi semelhante entre os dois grupos. Entretanto, os participantes do grupo 1 referiram uso significativamente maior de cannabis (46,7% vs 13,3%; P = 0,010).

Resultados

Os resultados evidenciaram melhorias significativas estatisticamente nos componentes de avaliação da saúde física e mental do SF-36. Nos escores VAS, escores FIQ e escores HAMA e HDRS para toda a população estudada (todos, P <0,05).  Segundo Amital, esse resultado foi surpreendente.

Apesar disso, as contagens de pontos dolorosos (tender-points) mantiveram inalteradas . Os pontos sensíveis “não são discriminatórios o suficiente” e exprimem um aspecto limitado da fibromialgia, que também inclui sono não reparador, fadiga e alteração cognitiva, acrescentou Amital.

Os pesquisadores encontraram uma melhora significativa em todas as aferições realizadas no estudo, exceto a contagem de pontos dolorosos durante o curso, quando os grupos foram analisados separadamente. Houve um discreto declínio na melhora no grupo 1 após o término do curso, mas as medições não voltaram aos níveis iniciais.

“Esses participantes do estudo ainda mantem o efeito positivo da terapia”, disse Amital.  Entretanto, como em qualquer intervenção médica, principalmente em pacientes com fibromialgia, “é preciso fazer manutenção” para preservar o efeito ideal, acrescentou Amital.

Artererapia

Realizar um curso de floricultura combina a arteterapia com a exposição a um elemento natural, as flores. E essa associação se mostrou muito benéfica. Por exemplo, estudos evidenciaram que a autoexpressão através da arteterapia criativa atenua os sintomas psiquiátricos em pacientes que apresentam trauma e depressão. Acredita-se que o envolvimento com elementos naturais – por exemplo, flores e plantas domésticas dentro de casa ou parques e florestas ao ar livre – reduz a pressão arterial, a frequência cardíaca e os níveis de estresse, melhora o humor e promove o relaxamento.

Amital está agora planejando abrir um curso de arranjos florais para pacientes com fibromialgia e outras doenças reumáticas no Centro Médico Sheba, que é o maior hospital de Israel. “Achei que seria uma boa maneira de mostrar que, apesar de ser um pouco diferente da forma convencional que somo educados e das ideias que nós médicos somos expostos, essa terapia tem um efeito positivo e não tem efeitos colaterais”, disse ele.

Análises

Clayton Jackson, ex-presidente da Academy of Integrative Pain Management e professor assistente clínico de medicina familiar e psiquiatria da University of Tennessee College of Medicine, Memphis, comentou sobre as descobertas para o Medscape Medical News. Observou que o estudo tem algumas limitações, incluindo seu tamanho pequeno e seu design observacional e não cego.

Apesar disso, ele disse que o método de intervenção mostra-se promissor e os resultados encontrados “adicionam para a base de evidências outras intervenções que podem ser úteis para pacientes com dor crônica”. Jackson, que não participou pesquisa, destacou que e estudo é interessante porque é uma abordagem não opióide e não farmacológica para um problema complexo que é o controle da dor em pacientes com fibromialgia. “Qualquer tratamento não farmacológico que possa funcionar é  muito interessante , pois pode ter implicações em outras síndromes dolorosas.”

Diferente de outros tipos de terapia ocupacional, o design floral “pode ​​ser multissensorial em seu efeito” na fibromialgia, acrescentou Jackson. “Existe a estimulação visual das flores, há estimulação tátil de arranjar de certas maneiras,  o contato social, e há potencialmente um elemento de aromaterapia, já que as  flores são aromáticas”, disse ele. E uma teoria da dor é que “experiências sensoriais agradáveis ​​podem ajudar a bloquear experiências sensoriais desagradáveis”, complementou Jackson

Texto publicado no Medscape Rheumatology

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