Fibromialgia e bactérias intestinais: o que há de evidências?

L&A ATUALIZAÇÕES

Fibromialgia e bactérias intestinais

Pesquisas recentes sugerem que pacientes com fibromialgia podem ter alterações específicas no microbioma intestinal que diferem de seus pares saudáveis.

Nesta “primeira evidência” para mostrar essa ligação, os investigadores descobriram que mulheres com fibromialgia tinham diferenças significativas em 19 espécies de bactérias intestinais quando comparados com os controles saudáveis. Essas mulheres também tinham níveis séricos mais elevados de butirato e níveis de propionato mais baixos.

“Esta é a primeira comprovação de alteração do microbioma intestinal na dor não visceral até onde vai nosso conhecimento”, informaram os pesquisadores.

“Basicamente, nós mostramos uma correlação entre fibromialgia e a composição e função do microbioma intestinal, mas algumas questões ainda precisam ser respondidas”, disse o médico Amir Minerbi da McGill University Health Center, Montreal – Canadá.

Isso inclui saber se estes achados encontrados são específicos para a fibromialgia ou se podem ser utilizados à dor crônica mais amplamente, disse Minerbi.
“Sabemos que o diagnóstico de fibromialgia é bastante desafiador, logo, um instrumento diagnóstico baseado na microbiota intestinal pode ser muito útil para os médicos. Isso abre as portas para estudos futuros principalmente na área da dor crônica”, acrescentou.

Os resultados foram publicados em 18 de junho na revista Pain.

Fisiopatologia questionável

“A fisiopatologia da fibromialgia ainda não é bem compreendida. Existem diversas hipóteses sugeridas, incluindo comprometimento do processamento nociceptivo do sistema nervoso central e periférico e inflamação sistêmica “ comentam os pesquisadores.

Além do mais, os médicos se baseiam nos sintomas referidos pelos pacientes, o que frequentemente leva a diagnósticos imprecisos. Dois estudos retrospectivos de coorte mostraram uma taxa de 66% a 73% de diagnósticos falso-positivos para fibromialgia.

Segundo os estudiosos, há indícios crescentes sobre o papel crítico da microbiota intestinal em uma diversidade de doenças como distúrbios metabólicos, cardiovasculares, oncológicos, neurológicos e psiquiátricos.

Contudo, dados sobre a possível função da microbiota intestinal na fisiopatologia da dor crônica fora do trato gastrointestinal ainda são insuficientes, o que fez com que os pesquisadores avaliassem uma possível associação entre a fibromialgia e o microbioma intestinal.

“Alguns dos mecanismos envolvidos em doenças neurológicas e psiquiátricas também estão envolvidos na dor crônica. Esse foi um dos motivos para analisar as alterações no microbioma de pacientes com dor crônica”, disse Minerbi.

Entre outubro de 2017 e junho de 2018, os pesquisadores recrutaram 77 mulheres que tinham fibromialgia e tinham entre 30 e 60 anos (idade média de 46 anos), em Montreal. O tempo médio de diagnóstico foi de 12 anos antes do recrutamento.

Três grupos também foram incluídos para servir de controles saudáveis. Incluía parentes em primeiro grau do sexo feminino para representar o controle genético (n = 11); integrantes da família dos pacientes do estudo (n = 20); e mulheres saudáveis não relacionadas que tinham idade semelhantes a dos pacientes (n = 48).

Além de entrevistas médicas, um nutricionista realizou entrevistas com os participantes e supervisionou a administração de um questionário dietético específico do Canadá.

Não houve diferenças significativas entre os grupos que ingeriram vitaminas, minerais, cafeína, álcool, açúcar, fibras e ácidos graxos. Os escores gerais de dieta também não foram significativamente diferentes.

Os participantes usaram um kit especifico ( Omnigen Gut OM-200 – DNA Genotek) para coletar amostra de fezes em casa. Essas amostras foram entregues no local do estudo dentro de 10 dias após a coleta e o DNA foi então extraído delas.

Usando a técnica de amplificação do gene do RNA ribossômico 16S (rRNA) e o seqüenciamento do genoma inteiro, os investigadores avaliaram os microbiomas das 77 mulheres com fibromialgia e dos 79 participantes que atuaram como grupo controle.

Diferenças dos microbiomas intestinais

Os resultados do estudo mostraram estrutura “relativamente parecidas” do microbioma intestinal entre os pacientes com fibromialgia e os controles saudáveis. No entanto, foram encontradas alterações significativas na composição do microbioma intestinal ao explorar os dados em uma “resolução mais alta”.

Dezenove espécies de bactérias encontradas foram significativamente diferentes nos pacientes com fibromialgia em comparação com os participantes controle do estudo. As bactérias encontradas em número reduzido foram a Faecalibacterium prausnitzii, Bacteroides uniformis, Prevotella copri e Blautia faecis. A Faecalibacterium prausnitzii é uma bactéria produtora de butirato que, em estudos anteriores, demonstrou estar reduzida significativamente em várias doenças intestinais.

Um número elevado de Bacteroides uniformis e Prevotella copri foi associado à artrite inflamatória em estudos anteriores. Além disso, Bacteroides uniformis foi detectada no tecido da articulação de pacientes com osteoartrite e a Prevotella copri no líquido sinovial de pacientes com artrite reumatóide. No entanto, essas espécies foram encontradas em menor número nos pacientes com fibromialgia, questionando considerações anteriores da fibromialgia ser uma doença reumatológica.

As espécies que foram encontradas em maior quantidade nos pacientes com fibromialgia incluíram Intestinimonas butyriciproducens, Flavonifractor plautii, Butyricoccus desmolans, Eisenbergiella tayi, Eisenbergiella massiliensis e Parabacteroides merdae.

Os níveis sanguíneos de ácido butírico foram significativamente mais altos e os níveis de ácido propiônico mais baixos no grupo fibromialgia versus o grupo controle (P = 0,005 e 0,006, respectivamente). Houve também uma correlação significativa entre as medidas de gravidade da doença, incluindo intensidade e distribuição da dor, fadiga e sintomas cognitivos, e o número elevado de diversas bactérias (Benjamini-Hochberg FDR, <0,05).

Pavimentando o caminho

O estudo abre caminho para novos estudos, para elucidação da fisiopatologia da fibromialgia, para desenvolvimento de novas técnicas diagnósticas e possivelmente para o desenvolvimento de novas modalidades de tratamento, escrevem os pesquisadores.

Minerbi acrescentou que os pesquisadores agora querem mapear outras condições que levam a dor crônica e ver se podem encontrar alterações similares no microbioma intestinal.

Além disso, segundo ele , o mais importante é o fato de saber que essas descobertas poderão ser usadas futuramente para tratar a fibromialgia e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Minerbi disse também que essas descobertas atuais são muito importantes para os pacientes em um nível psicológico.

“Por muitos anos, pelo fato da fibromialgia ser difícil de diagnosticar e por não existirem exames objetivos e diagnósticos, muitas pessoas não acreditavam que a fibromialgia existisse e os pacientes muitas vezes eram questionados por parentes, amigos e até médicos desse diagnóstico. Então, o que foi descoberto é de grande relevância “, explicou.

Mudança alimentar para dor?

Segundo dr. Robert Bonakdar, diretor do setor de manejo da dor do Scripps Center for Integrative Medicine, Califórnia, e ex-presidente da American Academy of Pain Management, esse é um dos melhores estudos já realizados na avaliação do microbioma intestinal e seu vínculo com a dor.

Sabe-se há algum tempo, que alterações no microbioma podem influenciar diferentes tipos de dor, como nas síndromes dolorosas (ex.dor pélvica crônica) e nas artrites inflamatórias.

“Este estudo encontrou uma relação significativa entre a quantidade e diversidade de bactérias com intensidade da dor, fadiga e disfunção cognitiva, frequentemente encontradas na fibromialgia”, disse dr. Bonakdar, que não estava envolvido na pesquisa.

“Esses achados podem ajudar a explicar o motivo pelas quais algumas abordagens nutricionais, como o aumento da ingestão de polifenóis nas frutas e vegetais, podem melhorar os sintomas da fibromialgia e a qualidade de vida”, acrescentou.

“Essa área é de grande importância médica, pois pode fornecer uma futura ferramenta diagnóstica para a fibromialgia. A presença de um microbioma específico pode permitir que os médicos compreendam até que ponto o intestino está desencadeando a doença e como intervenções que alteram o microbioma – como dieta, pré e probióticos – poderão ser ferramentas promissoras “, afirmou.

Bonakdar também apontou que, apesar dos médicos se sentirem mais confortáveis com intervenções intestinais, como transplantes de fezes em doenças gastrointestinais, como na doença inflamatória intestinal, utilizá-las no futuro para tratar condições clínicas como a fibromialgia, que está relacionada como parte do eixo intestino-cérebro, seria muito intrigante.

Ele observou que ainda há mais perguntas do que respostas no uso do microbioma no tratamento da dor.

Ele também acrescentou : “O principal argumento para os médicos é que, para seus pacientes, especialmente aqueles com dor refratária mais complexa, lembre-se intestino. Embora nem todas as respostas estejam lá, sabemos que o intestino é afetado na jornada da dor por meio de dieta, estresse, medicamentos e pelo próprio processo da doença . Além disso, sugiro uma dieta mais rica em fibras e polifenóis, enquanto estudos adicionais confirmam essas descobertas”, disse Bonakdar.

 

Texto publicado no Medscape – Rheumatology

 

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Dr. Marcelo de Loyola e Silva Avellar Fonseca – Reumatologista