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Cocaína e os efeitos cardiovasculares

De: | Tags: , , | Comments: 0 | dezembro 4th, 2017

A cocaína é uma das drogas ilícitas mais utilizadas em todo o mundo. É considerada a principal causa de visitas a departamentos de emergência relacionadas ao abuso de drogas, a maioria das quais é devido a queixas cardiovasculares. O seu uso pode estar associado a complicações cardiovasculares aguda ou crônica, muitas vezes podendo levar à morte.

 

Mecanismo de Ação

Os principais efeitos cardiovasculares da cocaína são decorrentes do aumento da noradrenalina na fenda sináptica ( espaço entre dois neurônios). Como consequência ocorre aumento da freqüência cardíaca, aumento da pressão arterial sistêmica e constrição da artéria coronária. Todas essas alterações  são decorrentes da estimulação dos receptores alfa e beta-adrenérgicos e resultam em aumento do consumo de oxigênio no coração e redução do fluxo de sangue no músculo cardíaco.

Outros efeitos cardiovasculares da cocaína incluem a promoção da formação de trombo  e pró-arritmia. E os efeitos cardiovasculares produzidos na forma intravenosa, intranasal e inalada são semelhantes, independentemente da via de ingestão.

 

Manifestações clínicas

O uso da cocaína está associado a uma série de doenças cardiovasculares potencialmente fatais como:

  • Infarto agudo do miocárdio
  • Arritmias
  • Miocardite
  • Dissecção aórtica

Abordaremos abaixo com mais detalhes cada uma dessas manifestações clínicas.

 

Dor torácica

De modo geral, todo paciente usuário de cocaína que se apresente com dor torácica deve ser descartado a possibilidade de infarto agudo do miocárdio ou dissecção de aorta. E a suspeita de uso de cocaína sempre deve ser aventada em pacientes jovens com o quadro de dor torácica já que a manifestação clínica é indistinguível das outras causas de isquemia miocárdica. A dor é freqüentemente retroesternal e opressiva, e pode estar associado a dispneia e diaforese. Também ocorrem apresentações atípicas, dor pleurítica, náuseas, palpitações, síncope e vômitos.

O manejo inicial dos pacientes com dor torácica e histórico de uso de cocaína não difere em nada quando comparados aos não usuários. Devem receber prontamente um eletrocardiograma (ECG) e radiografia de tórax, este exame para descartar a possibilidade de dissecção de aorta.

 

1-Isquemia miocárdica ou infarto agudo do miocárdio 

A isquemia miocárdica ou infarto agudo do miocárdio (IAM) é a complicação cardiológica mais comum relacionada ao uso da cocaína. Os sintomas  são caracterizados por dor torácica retroesternal ou precordial podendo estar associado a diaforese, náuseas / vômitos, dispnéia e uma sensação de catástrofe iminente.

O IAM nestes casos pode ocorrer em qualquer forma de uso e não está relacionado com a dose ou freqüência de uso de cocaína.  Além disso, é importante frisar que o risco de ter um IAM secundário ao uso de cocaína é maior na primeira hora. Alguns estudos demonstraram que cerca de dois terços dos infartos ocorrem dentro de três horas após o uso de cocaína e aproximadamente 25% ocorrem dentro de 60 minutos após o uso de cocaína.

A maioria dos IAMs associados à cocaína ocorrem na ausência de estenoses da artéria coronária secundária a doença aterosclerótica. No entanto, o uso crônico de cocaína pode causar aterogênese (formação de placas de gordura)  acelerada e hipertrofia do ventrículo esquerdo (LV), o que aumenta o risco de isquemia miocárdica ou IAM.

 

2-Dissecção de Aorta 

A dissecção de aorta sempre tem que ser suspeitada nos casos de pacientes usuários de cocaína e dor torácica. Os sintomas são de dor torácica excruciante, caracterizada como dor tipo “facada”, e muitas vezes com irradiação para as costas. O paciente geralmente relata nunca ter apresentado dor nessa intensidade anteriormente. A dissecção da aorta associada à cocaína é uma causa freqüente de dissecção em pessoas mais jovens e ocorre mais frequentemente naqueles com hipertensão não tratada ou mal controlada.

 

Cardiomiopatia

Apesar da relação entre cocaína e cardiomiopatia dilatada não tenha sido estabelecida de uma forma definitiva, esse é um achado presente em alguns usuários. Logo, todo caso em qual a etiologia da cardiomiopatia dilatada não foi definida, tem que se levantar a hipótese de uso de cocaína.

A apresentação da cardiomiopatia dilatada também é variada, podendo ser assintomático, apresentar-se com sintomas de insuficiência cardíaca ( dispnéia aos esforços, ortopnéia, dispnéia paroxística noturna), arritmia e até morte súbita.

A suspensão do uso de cocaína pode levar a recuperação completa do coração. No entanto, em alguns casos a lesão cardíaca pode ser definitiva

 

Miocardite

Miocardite (inflamação do músculo cardíaco) é um achado relativamente comum em autópsias de pacientes usuários cocaína. As manifestações clínicas podem variar desde uma doença subclínica, isto é, sem o paciente apresentar sintomas,  até a choque cardiogênico e morte súbita. Outras formas de apresentações da miocardite são: fadiga dor torácica, insuficiência cardíaca e arritmias.

 

Arritmias e anormalidades de condução

Existem diversas formas de apresentação de arritmia e alterações na condução do ritmo cardíaco com o uso da cocaína .As arritmias mais preocupantes associadas ao uso de cocaína, apesar de não frequentes, são taquicardia ventricular e fibrilação ventricular. As alterações mais comuns são taquicardias supraventriculares (particularmente taquicardia sinusal, taquicardia atrial paroxística e fibrilação atrial).

Seguem alguns exemplos das possíveis alterações:

  • Taquicardia ventricular / fibrilação ventricular
  • Taquicardia sinusal
  • Bradicardia sinusal
  • Bloqueios cardíaco

 

Avaliação diagnóstica

A avaliação inicial do paciente usuário de cocaína com dor torácica é igual a de qualquer outro paciente. É fundamental realizar uma história clínica e exame físico completos, realizar prontamente um eletrocardiograma e coletar os biomarcadores cardíacos (troponina e CK MB massa). Na suspeita de dissecção da aorta, uma radiografia de tórax ou ecocardiograma transtorácico pode fornecer pistas do diagnóstico. No entanto, o diagnóstico definitivo de dissecção geralmente requer angiotomografia de tórax.

 

Tratamento

O tratamento dos pacientes com dor torácica e suspeita de infarto agudo do miocárdio (IAM) relacionado ao uso de cocaína não muda em nada quando comparada aos não usuários. A exceção ocorre para o uso de beta bloqueadores que não deve ser utilizado na fase inicial de um possível IAM.

A aspirina é uma importante medicação no manejo clínico a não ser que haja suspeita de dissecção de aorta.  A nitroglicerina sublingual e o bloqueador de canal de cálcio podem ser utilizados para o alívio da dor.

Como em qualquer outro caso de suspeita de IAM, a reperfusão precoce é uma parte importante no tratamento. Nesses pacientes é realizado a angiografia coronariana e a angioplastia quando indicado.

Em relação ao tratamento em longo prazo, todos os pacientes que foram diagnosticados com IAM devem ser tratados  com um fármaco antiplaquetário (ex.: aspirina) e uma estatina. E a cessação da cocaína é o principal tratamento para evitar recidivas e complicações futuras.

 

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Alexandre

 

Dr. Alexandre de Loyola e Silva Avellar Fonseca – Cardiologista

 

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